Faz três semanas que a carteira do CRP chegou. Você tem dois pacientes indicados por uma ex-professora, nenhuma sala e uma lista no bloco de notas do celular que diz, mais ou menos: “CNPJ?”, “alvará??”, “contrato”, “quanto cobrar”, “prontuário — papel ou sistema?”. Cada colega que você pergunta dá uma resposta diferente. Este texto põe ordem nisso: como abrir consultório de psicologia passo a passo, separando o que é obrigação do que é escolha sua.
Uma ressalva: imposto e alvará mudam conforme a cidade e a sua situação. Onde a resposta depende do município ou do contador, vamos dizer isso com todas as letras em vez de inventar número.
Como abrir consultório de psicologia: a ordem dos passos
Para abrir consultório de psicologia, a ordem que costuma funcionar é: inscrição ativa no CRP, decisão entre pessoa física e CNPJ (com um contador), regularização na prefeitura, escolha da sala, e só então contrato, prontuário, recibo e sistema prontos para a primeira sessão.
- Inscrição no CRP da sua região, com a carteira em mãos.
- Uma conversa com contador sobre pessoa física ou CNPJ.
- Prefeitura: inscrição como autônoma (ou alvará da empresa) e ISS.
- Sala: própria, alugada, sublocada por hora, ou atendimento só online.
- Modelo de contrato terapêutico e política de faltas.
- Prontuário organizado antes do primeiro paciente.
- Receita Saúde e carnê-leão configurados, se for pessoa física.
- Valor da sessão definido com conta, não com chute.
- Divulgação mínima: perfil no Google (se presencial), página simples, colegas avisados.
Dá para fazer alguns em paralelo, claro. Mas atender antes do passo 1 não é opção, e chegar no paciente sem os passos 5 e 6 costuma gerar retrabalho.
Inscrição no CRP
Sem inscrição ativa no Conselho Regional de Psicologia, não há exercício legal da profissão: a Lei nº 5.766/1971 diz, no art. 10, que todo profissional de psicologia deve se inscrever no conselho regional da sua área para exercer a profissão.
Três consequências práticas da inscrição para quem está abrindo consultório:
- A anuidade passa a ser um custo fixo. Consulte o valor do ano no site do seu CRP e coloque na conta, dividido por 12.
- Toda divulgação precisa trazer nome completo, a palavra psicóloga ou psicólogo e o número do CRP (art. 20 do Código de Ética). As outras regras de publicidade estão no guia de como conseguir pacientes como psicólogo.
- O seu registro ativo é o que habilita o perfil profissional no Receita Saúde, como veremos adiante.
Se você pretende atender online, há regras próprias do CFP para isso. Elas estão no guia de atendimento psicológico online.
Pessoa física ou CNPJ?
Dá para abrir consultório como pessoa física, sem CNPJ: o CRP-12 (Santa Catarina), nas suas perguntas frequentes, lista três possibilidades na iniciativa privada — trabalhar como autônoma, constituir pessoa jurídica ou ser contratada. A escolha entre autônoma e CNPJ é de custo-benefício, e o próprio conselho orienta procurar um contador.
| Pessoa física (autônoma) | Pessoa jurídica (CNPJ) | |
|---|---|---|
| Imposto de renda | Carnê-leão mensal sobre o que recebe de pessoa física | Pelo regime da empresa; no Simples Nacional, psicologia está no art. 18, § 5º-B, XXI da LC 123/2006 |
| Comprovante para o paciente | Receita Saúde, obrigatório desde 2025 | Nota fiscal da empresa |
| Prefeitura | Inscrição como autônoma e ISS | Alvará da empresa e ISS |
| CRP | Só a inscrição pessoal | Inscrição pessoal e inscrição da empresa no CRP, com responsável técnica (Res. CFP nº 16/2019) — em geral, duas anuidades |
| Contador | Opcional, mas ajuda | Na prática, necessário todo mês |
Alguns pontos que costumam confundir:
- MEI não serve. A psicologia não aparece na lista de ocupações permitidas ao MEI (Anexo XI da Resolução CGSN nº 140/2018, que consultamos no site do Simples Nacional).
- Anexo III ou V do Simples. Pela LC 123/2006, a psicologia é tributada pelo Anexo III, mas vai para o Anexo V quando a folha de salários for inferior a 28% da receita bruta (§ 5º-M do art. 18). É o famoso “fator R”. Qual anexo e qual alíquota valem para você é conta do contador, com os seus números.
- CNPJ no CRP. Segundo o CRP-12, se a psicologia consta no objeto social da empresa, a inscrição da pessoa jurídica no CRP é obrigatória, com base na Lei nº 6.839/1980 e na Resolução CFP nº 16/2019. O certificado da empresa vale por três anos e fica exposto ao público.
- Convênio. Se a operadora pedir CNPJ para credenciar, saiba que, segundo o CRP-12, essa é uma exigência da operadora, não uma norma da ANS.
Nossa opinião: para quem está começando com poucos pacientes particulares, a pessoa física costuma ser o caminho mais simples. O CNPJ passa a fazer sentido quando o faturamento cresce, quando entra convênio que exige, ou quando você vai dividir estrutura com colegas. Mas “costuma” não é “sempre” — uma hora de contador agora sai mais barata do que um ano no regime errado.
Prefeitura, alvará e ISS
Quem vai atender como autônoma precisa se informar na prefeitura da sua cidade sobre a inscrição de autônomo e os alvarás exigidos; cada município tem regras, documentos, taxas e alíquota de ISS próprios.
O CRP-12 detalha que a psicóloga autônoma deve procurar a prefeitura para o Alvará de Autônomo e também se informar sobre os alvarás da Vigilância Sanitária e do Corpo de Bombeiros do município. Uma vez inscrita, passa a recolher o ISS, que é tributo municipal. E lembra: a fiscalização do alvará e do ISS é da prefeitura, não do CRP.
Se você vai sublocar sala numa clínica ou num espaço compartilhado, pergunte ao responsável pelo espaço como está a regularização do imóvel e confira na prefeitura o que fica por sua conta. Não presuma que o alvará do prédio cobre você.
Sala própria, sublocação por hora ou só online
A sala de atendimento precisa garantir sigilo: o CRP-12 orienta que a psicóloga disponha de sala com vedação acústica e visual sempre que o atendimento pressuponha acesso à intimidade, em ambiente higiênico, ventilado, iluminado e com mobiliário adequado. Não existe norma de tamanho mínimo, segundo a mesma orientação.
| Opção | A favor | Contra |
|---|---|---|
| Sala própria ou alugada inteira | Horários livres, sua cara, endereço fixo para o Google | Custo fixo alto desde o primeiro mês, com agenda ainda vazia |
| Sublocação por hora ou turno | Custo proporcional ao uso, sem mobiliar | Horários disputados, menos controle sobre isolamento acústico e recepção |
| Só online | Sem custo de sala, atende outras cidades | Regras próprias do CFP; fica fora do Perfil da Empresa no Google, que exige local físico |
Nossa sugestão para quem está começando: sublocar um ou dois turnos fixos por semana e combinar isso com algumas sessões online. Quando os turnos encherem, você terá dado real para decidir se vale alugar uma sala inteira. Antes de fechar qualquer sublocação, sente na sala, feche a porta e peça para alguém falar em tom normal do lado de fora. Se der para entender, não serve.
Prontuário, contrato e recibo desde a primeira sessão
Desde o primeiro atendimento, a psicóloga é obrigada a manter o registro dos serviços prestados, conforme a Resolução CFP nº 1/2009 (alterada pela nº 5/2010); o registro pode ser em papel ou informatizado, segundo o Manual Orientativo do CFP de novembro de 2025.
O que deixar pronto antes do primeiro paciente:
- Prontuário. Onde vai ficar, com que estrutura, quem tem acesso, por quanto tempo você vai guardar. O guia de prontuário psicológico detalha o conteúdo mínimo e a guarda.
- Contrato terapêutico. O CRP-12 recomenda que seja escrito e elaborado com apoio jurídico, e que trate de honorários, forma de pagamento, cancelamento e faltas. O Código de Ética exige que o valor seja comunicado antes do início do trabalho (art. 4º).
- Recibo. Se você vai atender como pessoa física, configure o Receita Saúde e o Carnê-Leão Web antes de receber o primeiro pagamento. O passo a passo está no guia do Receita Saúde para psicólogos.
Parece muita burocracia para dois pacientes. É. Mas é bem mais fácil começar organizada do que reconstruir seis meses de registro depois.
Quanto custa começar
O custo para abrir um consultório de psicologia depende de quatro escolhas: pessoa física ou CNPJ, tipo de sala, cidade e quanto você investe em estrutura no início. Por isso não vamos dar um número fechado — mas dá para listar tudo o que entra na conta.
- Uma vez só: móveis (se a sala for sua), taxas de abertura na prefeitura, abertura de CNPJ se for o caso, material de consultório, armário com chave se você guardar documentos em papel.
- Todo mês: sala ou sublocação, contador (se tiver), internet e telefone, sistema, supervisão, ISS e impostos sobre o que recebe.
- Todo ano: anuidade do CRP (e da empresa, se houver CNPJ), taxas municipais renováveis.
- O que costuma ser esquecido: terapia pessoal, cursos, o tempo de evolução e administrativo que não aparece na agenda, e um colchão para os primeiros meses de agenda vazia.
Com essa lista, a conta do valor da sessão fica muito mais honesta. O guia de quanto cobrar por sessão de psicologia mostra como transformar esses custos num valor por atendimento, com um exemplo numérico.
O sistema do primeiro dia
No primeiro dia, um sistema para consultório de psicologia precisa resolver três coisas: agenda com sessões recorrentes, prontuário com sigilo e um financeiro simples que mostre quem pagou. O resto pode esperar.
É aqui que o Psicoly entra, e vale dizer o que ele faz e o que não faz. Ele roda no navegador (celular, tablet ou computador) e pode ser instalado pela opção “adicionar à tela de início” — não está na App Store nem no Google Play. Tem agenda semanal com sessões recorrentes e sessão online guardando o link da sala que você já usa; evolução de psicologia sigilosa, que só abre para quem atendeu; fichas prontas de anamnese adulto e infantil; recibo em PDF com o CRP no rodapé; e financeiro com cobrança por sessão. Para importar pacientes que você já tinha numa planilha, aceita Excel ou CSV com prévia antes de gravar.
O que ele não faz: não emite Receita Saúde nem nota fiscal, não manda lembrete automático por WhatsApp (a mensagem sai pronta, mas quem envia é você), não tem videochamada própria e não divulga você para pacientes. Se algum desses itens é indispensável no seu começo, leve isso em conta. O guia de sistema para psicólogos ajuda a comparar com calma.
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Psicólogo pode ser MEI?
Não. A psicologia não aparece na lista de ocupações permitidas ao MEI, o Anexo XI da Resolução CGSN nº 140/2018. Quem quer CNPJ precisa abrir outro tipo de empresa e, segundo o CRP-12, registrá-la também no CRP.
Preciso de CNPJ para abrir consultório de psicologia?
Não. Dá para atender como autônoma, pessoa física, e o CRP-12 cita essa como uma das três possibilidades na iniciativa privada. Nesse caso você recolhe carnê-leão, emite o Receita Saúde e se inscreve na prefeitura como autônoma.
Psicólogo precisa de alvará para atender em consultório?
Depende do município. O CRP-12 orienta a psicóloga autônoma a procurar a prefeitura para o Alvará de Autônomo e a se informar sobre os alvarás da Vigilância Sanitária e do Corpo de Bombeiros. A fiscalização é da prefeitura, não do CRP.
Posso atender em sala sublocada por hora?
Não encontramos norma que impeça. O que a orientação do CRP-12 exige é que a sala garanta o sigilo, com vedação acústica e visual, e seja adequada ao atendimento. Confira também na prefeitura o que fica por sua conta.
O que preciso ter pronto antes do primeiro paciente?
Inscrição ativa no CRP e um jeito de registrar os atendimentos, que é obrigatório pela Resolução CFP nº 1/2009. Também ajuda ter um contrato com valor, forma de pagamento e política de faltas. Se você atende como pessoa física, deixe o Receita Saúde configurado antes do primeiro pagamento.